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As partes e o todo: o que há em comum entre as manifestações que varrem o planeta?

Para além dos meios comuns utilizados para organizar e convocar as recentes manifestações juvenis, as redes sociais, precisamos compreender as mediações comuns, que só podem ser desveladas para além das demandas locais específicas de cada país.

 

André Luiz da Silva*

 

Uma das lições que a era hitlerista nos ensinou é a de como é estúpido ser inteligente. Quantos não foram os argumentos bem fundamentados com que os judeus negaram as chances de Hitler chegar ao poder, quando sua ascensão já estava clara como o dia! […] Hitler era contra o espírito e anti-humano. Mas há um espírito que é também anti-humano: sua marca é a superioridade bem informada. (HORKEIHEMER, M. Dialética do esclarecimento).

Não sei se me espanto mais com os adolescentes que pregam o fim dos partidos e a volta dos militares ao governo do Brasil ou com os analistas que dizem que não haverá golpe no país. Um milhão de pessoas nas ruas do país, espalhadas por centenas de cidades derrubam sim um presidente, uma presidenta, no caso. A partir daí, existe um milímetro para o golpe. Mas eu sou um incorrigível pessimista diante do futuro da humanidade. E, por sorte, um péssimo futurólogo de curto prazo. Por isso, não quero falar sobre o possível golpe no Brasil que teme em pleno século XXI o comunismo. Quero registrar aqui algumas reflexões feitas no calor da aflição dos acontecimentos que nos (des)norteiam a todos, e falar, lógico, da contradição que constitui a vida social e sua análise. Preciso correr o risco de me somar aos idiotas esclarecidos.

Pois bem, outra coisa que me espantou muito foi a ausência de uma análise totalizadora do fenômeno, ao menos no rol de leituras indicadas por minha rede virtual. Nem mesmo a analise de Boaventura de Souza Santos (ver aqui: o preço do progresso), um dos intelectuais mais eminentes do Fórum Social Mundial, faz menção ao aspecto que entendo ser o fulcro das atuais manifestações no Brasil e no mundo. Apesar da interessante chave de leitura que o eminente e respeitado sociólogo propõe, a saber, o confronto das três narrativas e temporalidades do Brasil contemporâneo: a da exclusão social (antiga), a da reivindicação da democracia participativa (média, 25 a 30 anos) e a das vastas políticas de inclusão social petista (recente), ele derrapa em algumas percepções (como a que entende que as políticas de inclusão ampliaram o reconhecimento dos direitos de quilombolas e indígenas, para ficar com a mais expressiva) e não menciona a inoperância e ausência de poder do Estado brasileiro diante da força dos capitais multinacionais, o produtivo e o especulativo. Essa é a lacuna que tenho percebido nas análises sobre os variados protestos de jovens ao redor do mundo. No caso brasileiro, para fazer justiça, dentro das leituras a mim indicadas, o único que faz alguma menção ao fato do esfacelamento da nação é Vladimir Safatle (ver aqui: Política não se dará mais dentro dos partidos, mas nas ruas), mas o remete, e não aprofunda, à dimensão da diversidade cultural e preconceito moral.

Para evitar o cientificismo, isto é, “a superioridade bem informada”, limito-me a apenas dois analistas de peso que respeito e admiro. Não estou me colocando contrário às suas opiniões ou às de muitos outros analistas (muitos deles, talvez, estúpidos por serem inteligentes) que realizam a difícil, ingrata e contraditória tarefa de pensar o agora. Aponto apenas para a lacuna e já adianto que não trago nada de novo, aliás, nem inédito. O que escrevo a seguir foi publicado no calor e contradição própria da comunicação instantânea do microblog twitter.

Uma coisa que imagino ser importante é pensar as questões que vão além dos meios comuns utilizados para organizar e convocar as recentes manifestações juvenis, as redes sociais, precisamos compreender as mediações comuns, que só podem ser desveladas para além das demandas locais específicas de cada país. O que sintetiza as manifestações que varrem o planeta?

Aparentemente isso é muito claro: os jovens estão contra os poderes instituídos. No entanto, eles não estão contra todos os poderes instituídos, revoltam-se sobretudo contra a política, calam-se diante da economia, sobre os modelos atuais das forças produtivas. Mesmo nos casos que fatores econômicos os atingem e incomodam diretamente, como na Europa em que países sustentam uma taxa de 50% de desemprego entre os jovens, miram os ataques exclusivamente para os políticos. Com certeza eles têm sua parcela de culpa, e ela é realmente grande. Mas é importante saber sobre o silêncio em relação ao capitalismo, que nada mais é que o “sistema” que os oprime e contra o qual se opõem, mas não sabem. É a economia globalizada que determina a falência da política nacional e seus políticos. As margens de ação que possuem são muito restritas, porque oferecem um estado social mínimo e um estado financista gigante. E neste aspecto não há diferença entre o partido de esquerda, de centro e de direita, como a história recente da Europa nos tem demonstrado. A revolta contra os políticos é o desejo por mais poder de ação e transformação, mas infelizmente esse poder não está mais nas mãos dos políticos das nações. Está na mão do capital transnacional, o financeiro e o produtivo. A fragmentação das lutas populares contra inimigos locais (os políticos do país e o monopólio midiático), ainda que importante, só favorece o inimigo mais importante, só significa mais dinheiro público para o rentismo e menos dinheiro público para a saúde e o transporte coletivo.

Uma boa metáfora para entender como estes capitais (dinheiro) funcionam é a da dominação masculina, um poder ainda fortemente atuante na esfera ideológica, como os recentes ataques dirigidos à presidenta do Brasil têm demonstrado. O capital financeiro age como o cafetão que extorque, na forma de juros ou “empréstimos” para “evitar o caos econômico”, suas escravas nações. O capital produtivo transnacional assemelha-se àquele dono pervertido de harém, que pede para suas mulheres-nações abrir as pernas para que ele possa escolher onde realizar seu investimento. Desculpem-me o palavreado, o reducionismo e as simplificações, mas essa foi a única imagem que me veio a mente quando soube das “negociações” que a empresa Chevrolet fez com o sindicato dos metalúrgicos e a prefeitura de São José dos Campos-SP, Brasil, extorquindo isenções de impostos municipais, estaduais (os federais já os tem) e investimentos milionários da prefeitura para um distrito industrial exclusivo, bem como, revogando direitos trabalhistas históricos como o poder de compra dos salários (reduzindo-os) e sem garantir ao menos os empregos dos trabalhadores. Essas concessões todas foram exigidas para trazer uma nova linha de montagem e garantir a continuidade das atividades de sua filial na cidade. Mas, atenção, depois de ter tudo o que pediu, constrangendo um histórico e combativo sindicato de trabalhadores, a direção revelou que a definição do investimento só ocorreria depois de analisar propostas de outras três cidades do Brasil e do mundo. Quem prometer mais lucro e prazer ganha o direito de se deitar e ser…, deixa para lá.

Coisas como essas são sentidas e percebidas (porém, muitas vezes não compreendidas) na vida cotidiana das grandes e pequenas cidades brasileiras. Entretanto, os empresários transnacionais e seus representantes locais são sempre pintados de heróis, os culpados são os sindicatos (que não negociaram para segurar o emprego ou arredaram e permitiram a deterioração das relações de trabalho, que eliminaram as horas-extras, etc.) ou os políticos (que não zeraram os impostos ou não “doaram” terrenos, isso que não Brasil chamamos de Guerra Fiscal, para indústrias que poderiam criar mais uma dezena de empregos na cidade, por exemplo).

A população sente também os efeitos da economia e sobretudo a qualidade dos serviços públicos que são cada vez mais precários em seu dia-a-dia. E por uma razão muito simples. As coisas funcionam como uma equação matemática. Como os prefeitos têm anunciado, a redução das passagens de ônibus deverão ter compensações de alguma forma (e olhe aqui um dos motivos da culpa dos políticos), e elas não sairão dos lucros dos empresários do setor, mas sim de outros serviços oferecidos pelo município: saúde e/ou educação, por exemplo. As empresas conseguem convencer os políticos não apenas com ameaças…; a realidade não é simples como as noções positivo versus negativo, esquerda versus direita, a favor versus contra, ela é complexa, cheia de senões, arranjos e poréns!

Essa complexidade pode ser retratada com o registro de algumas situações cotidianas sobre os fatos recentes da economia brasileira. Apresento apenas pequenos e focalizados exemplos do funcionamento da economia na visão de cidadãos privilegiados, que muito provavelmente não votaram na atual presidente e cujos filhos estão nas passeatas; protagonistas que podem nos dizer algumas coisas sobre as “razões” da pretensa crise econômica brasileira (há muitos setores interessados em torná-la verdadeira). Transcrevo comentários de pessoas atuantes em dois setores econômicos diferentes que ouvi num município médio do interior do estado de São Paulo, na noite do dia 20 de junho de 2012 - quando uma centena de cidades brasileiras viu suas ruas tomadas por manifestantes, contra os políticos e muitas outras coisas, quase todas sem nexo entre si. São eles, o comércio local e a indústria multinacional.

Na mesa de um boteco, dois donos de lojas tradicionais do centro da cidade discutiam os negócios desde os últimos meses do corrente ano. Concluíram, para ser breve, que as vendas diminuíram, quase voltaram ao patamar do ano de 2011; o “problema” foi que o comércio vendeu muito em 2012. Um pico fora da curva pode estar gerando uma sensação de retrocesso, meus vizinhos de mesa compreenderam o efeito.

No mesmo dia, em sua casa, um funcionário que exerce cargo de chefia em indústria de autopeças, confidencia: o setor automotivo vende absurdamente muito no Brasil, mas não tem lucro. Evidentemente, espanto-me e pergunto como, já que o preço do automóvel vendido no Brasil é relativamente um dos mais caros do mundo? (Ver aqui uma reportagem sobre o tema, mas atente para a contradição: o texto diz que o valor do automóvel é caro por causa dos impostos, mas a diferença entre os impostos cobrados aqui e no “resto do mundo” é de 16%, enquanto a diferença no preço final do carro chega a ser de mais de 100%). Meu amigo esclarece: as empresas não têm lucro porque precisam remeter todo o resultado positivo angariado no Brasil para as matrizes localizadas na Europa e nos Estados Unidos para compensar os prejuízos (eu digo, os lucros menores) que estão tendo em função da já longa crise desde 2008. Ele diz mais: se o governo ou os dirigentes brasileiros de suas montadoras e fábricas de autopeças reclamam, os porta-vozes dos acionistas ameaçam levar as linhas de montagem para lá (e eu digo que nisso blefam). Segundo a mesma conversa, os europeus (meu amigo trabalha numa empresa espanhola) argumentam que teríamos que sustentar as plantas matrizes, como no passado elas sustentaram as ineficiências (?!) de suas filiais brasileiras.

Financiamos, portanto, a manutenção dos empregos que restaram nesse setor (e em outros) lá nos países centrais do ocidente. O arrocho dos salários dos atuais e futuros funcionários da Chevrolet e das demais montadoras de automóveis e fornecedoras de peças do Brasil (e de outros países periféricos), estão ajudando (não esqueça do cafetão) a manter os empregos norte-americanos e europeus e os lucros do capital transnacional. Ou seja, somos periferia do sistema ainda. Apesar de já não sermos mais tão diferentes. O chamado custo Brasil, que aparece na reportagem mencionada acima, na verdade é o “lucro Brasil”. Esse é o sistema que sufoca o país e contra o qual o povo se rebela sem saber, por isso mira no alvo mais aparente, o político: o governo, o congresso e assembléias; e também os movimentos sociais como sindicatos e movimento dos trabalhadores sem terra.

Evidentemente, um diagnóstico desse tipo não deveria servir para nos colocar na defensiva ou para lavarmos as nossas mãos, porque o problema não é conosco ou é maior do que nossas capacidades de ação. É preciso entender o que está se passando, denunciar e lutar, não há solução sem luta. Concordo totalmente com o que Safatle disse no texto acima mencionado: “Agora é hora de compreender que o verdadeiro embate começou e será longo.” Uma lição clara do que está acontecendo no Brasil e no mundo é escandalosa: o modelo atual de organização política nas democracias capitalistas não serve mais. Mas o que há de errado com a democracia? Para entender, como venho sustentando, é preciso ver o que há em comum entre todos levantes atuais (até naqueles países não democráticos).

Como dissemos, todos são contrários a governos de Estados-Nacionais. Esse não é o indício, mas a certeza da falência do Estado-Nação e seu modelo de democracia “participativa”. Sem entender que Estado e seus governantes são reféns do poder do capital transnacional, não haverá solução possível. Precisamos reinventar a democracia para além da democracia Nacional. Os partidos ou associações similares que eventualmente venham substituí-los também precisam se (re)inventar nesses termos. Nesse quesito, imagino que os chamados movimentos anti-globalização, os dos chamados eixo de poder Sul-Sul, especialmente, estão em vantagem, apesar de aparentemente latentes neste momento. Como bem lembrou Zigmunt Bauman, há, muito provavelmente, um divórcio entre a política e o poder; portanto, o Estado-Nação, relativamente sem poder (sem dinheiro, lembre-se das isenções de impostos às multinacionais), oferece cada vez menos aos cidadãos. (Ver sua Declaração aqui: Diálogos com Zygmunt Bauman, a partir dos 2’05”).

Não tenho respostas, nem trato concretamente desse aspecto aqui, mas pergunto, esse deslocamento do olhar dos manifestantes e o consequente silêncio, estariam relacionados ao estilo de vida dos jovens contemporâneos? As práticas de consumo explicariam a isenção de culpa atribuída aos empresários do setor de transportes municipais e transnacionais em geral? Ou seria o medo do comunismo aquilo que desautoriza qualquer menção aos malefícios do capital? 

Enfim, o ódio dos jovens (acredito que a psicanálise tem muito a dizer sobre os movimentos recentes) “contra tudo” é, além de poderoso, correto e necessário. Contudo, seu alvo está relativamente deslocado. O que impede o desenvolvimento da qualidade de vida é o chamado neoliberalismo, a globalização e flexibilização do capital e da força de trabalho; e os políticos de qualquer lugar do mundo, sejam os de esquerda, sejam os de direita (ainda que existam diferenças significativas nos fins almejados), nada podem fazer contra o modo de produção do capitalismo globalizado. As políticas circunscritas às fronteiras nacionais têm poder muito reduzido frente às empresas transnacionais que exigem isenção de impostos e infra-estrutura para gerar empregos pífios, porém lucros elevados. Sem os impostos de grandes empresas não há como investir na melhoria significativa da saúde, educação, transporte, etc.

A solução? É povo jovem e não tão jovem nas ruas sim. Mas, coordenada e horizontalmente (sem lideranças hierárquicas) os povos do mundo todo precisam ir às ruas, contra o modelo predador e selvagem do atual modo de produção: Indignados do mundo todo, uni-vos!… Um movimento global contra o inimigo global: o capital, sobretudo o financeiro. E por óbvio, ser contra a transnacionalização do capital não é ser comunista. O inimigo é outro molecada; o inimigo é outro “superior bem informado” da academia e do facebook; e sua ascensão já é clara como o dia!

 

* Apesar de cientista social, não é especialista nesse assunto, nem profeta, muito menos inteligente ou comunista, portanto merece todo tipo de crítica, as quais serão muito bem vindas.

 

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